A decisão em jogo
Construir a nova unidade, comprar a máquina, abrir a filial, entrar em energia solar. Todo investimento relevante compromete o caixa da empresa por anos e, quase sempre, é irreversível: depois da obra pronta, não há como devolver o galpão. É exatamente nesse tipo de decisão - grande, rara e sem volta - que a intuição do empresário, tão eficiente no dia a dia, mais falha.
O que é um estudo de viabilidade
É a análise que responde, com números, a três perguntas: o projeto cria valor? A empresa consegue pagá-lo? O que acontece se as coisas não saírem como planejado? Para isso, o estudo projeta mercado, receitas, custos, investimentos, capital de giro e financiamento ao longo da vida do projeto e resume o resultado em indicadores:
| Indicador | O que mede | Regra de decisão |
|---|---|---|
| VPL - Valor Presente Líquido | Quanto o projeto acrescenta de riqueza, em reais de hoje, depois de remunerar o capital | Aceitar se VPL for maior que zero |
| TIR - Taxa Interna de Retorno | Rentabilidade anual implícita do fluxo de caixa | Aceitar se TIR for maior que o custo de capital |
| Payback descontado | Em quanto tempo o investimento se paga, considerando o valor do dinheiro no tempo | Comparar com a vida útil e o prazo do financiamento |
| Índice de cobertura do serviço da dívida | Geração de caixa dividida pela parcela anual | Bancos costumam exigir folga confortável acima de 1,0 |
| Ponto de equilíbrio | Volume mínimo para não ter prejuízo | Comparar com a demanda pessimista |
O que a ciência mostra
O fluxo de caixa descontado é o padrão da teoria de finanças desde meados do século XX e está na base de todos os manuais de referência, de Brealey, Myers e Allen a Assaf Neto. Não é apenas teoria: na pesquisa clássica de Graham e Harvey com 392 diretores financeiros norte-americanos, cerca de três em cada quatro declararam usar VPL e TIR sempre ou quase sempre em suas decisões de investimento.
A segunda contribuição vem da psicologia econômica. Kahneman e Tversky descreveram a falácia do planejamento: quem planeja um projeto tende, sistematicamente, a subestimar custos e prazos e a superestimar resultados. Bent Flyvbjerg e colegas mediram o fenômeno em 258 projetos de infraestrutura de vinte países: em quase nove de cada dez, o custo final superou o orçado. O antídoto proposto pelos próprios autores é olhar o projeto "de fora": usar dados de empreendimentos semelhantes, premissas documentadas e cenários - exatamente o que um estudo independente faz.
Por fim, desde o artigo de David Hertz na Harvard Business Review, em 1964, a boa prática recomenda tratar as premissas como faixas, e não como números únicos, por meio de análise de sensibilidade, cenários e simulação.
Quando o estudo é necessário
- Antes de qualquer investimento que comprometa parcela relevante do patrimônio ou do caixa.
- Para pedir crédito de longo prazo: FCO, FNO, FNE, BNDES e Desenvolve SP exigem a demonstração da viabilidade e da capacidade de pagamento.
- Para atrair sócios ou investidores, ou decidir entre alternativas (comprar ou alugar, ampliar ou terceirizar).
- Em projetos de concessão, energia e infraestrutura, em que o retorno depende de contratos de longo prazo.
Como a AB1 faz - passo a passo
- Diagnóstico da empresa e do projeto: histórico, demonstrações contábeis, capacidade instalada e objetivos.
- Estudo de mercado: demanda, concorrência, preços e participação esperada, com fontes identificadas.
- Engenharia financeira do projeto: orçamento de investimentos, cronograma físico-financeiro, capital de giro e quadro de usos e fontes.
- Projeções de receitas, custos, tributos e depreciação; DRE, fluxo de caixa e balanço projetados.
- Definição do custo de capital e cálculo de VPL, TIR, TIR modificada, payback e índices de cobertura.
- Análise de sensibilidade e de cenários para as variáveis críticas: preço, volume, custo, câmbio, prazo de obra e taxa de juros.
- Relatório final em padrão ABNT, com premissas documentadas e memória de cálculo auditável.
O que a empresa recebe
Um relatório técnico completo, planilhas abertas com todas as projeções, sumário executivo para bancos e sócios e a apresentação dos resultados à diretoria. O documento já nasce no formato exigido pela instituição financeira escolhida.
Erros que custam caro
- Projetar receita pela capacidade instalada, e não pela demanda que o mercado comporta.
- Esquecer o capital de giro: crescer consome caixa antes de gerar lucro.
- Confundir lucro contábil com geração de caixa.
- Usar taxa de desconto arbitrária ou comparar TIR de projetos com riscos diferentes.
- Trabalhar com um único cenário, sempre o otimista.
- Financiar ativo de longo prazo com dívida de curto prazo.
Benefícios para a empresa
- Decisão de investir - ou de não investir - tomada com critério. Descobrir no papel que o projeto não se paga custa uma fração do que custa descobrir depois da obra.
- Dimensionamento correto do financiamento, da carência e da contrapartida, evitando falta de recursos no meio da implantação.
- Linguagem que o banco entende: o estudo responde de antemão às perguntas do analista de crédito e encurta a tramitação.
- Poder de negociação com sócios, investidores e fornecedores, com base em números defensáveis.
- Um orçamento de referência para acompanhar a execução e corrigir desvios a tempo.
Referências
- ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. São Paulo: Atlas.
- BREALEY, R.; MYERS, S.; ALLEN, F. Principles of corporate finance. New York: McGraw-Hill.
- FLYVBJERG, B.; HOLM, M. S.; BUHL, S. Underestimating costs in public works projects: error or lie? Journal of the American Planning Association, v. 68, n. 3, 2002.
- GRAHAM, J. R.; HARVEY, C. R. The theory and practice of corporate finance: evidence from the field. Journal of Financial Economics, v. 60, 2001.
- HERTZ, D. B. Risk analysis in capital investment. Harvard Business Review, jan.-fev. 1964.
- KAHNEMAN, D.; TVERSKY, A. Intuitive prediction: biases and corrective procedures. TIMS Studies in Management Science, v. 12, 1979.
Por José Antonio Bastos, administrador (CRA) e consultor financeiro da AB1.

